Alguém já disse em algum lugar que qualquer pessoa é capaz de fazer qualquer coisa. Eu digo que não há perfeição nesse mundo, e essa é toda a graça que ele tem. Recentemente, conectar esses dois pensamentos se tornou um grande exercício pra mim, para entender que quando estamos vivendo o sonho, é de realidade que devemos chamá-lo.
Se estava escrito que um dia eu adentraria os espessos jardins daquela Escola, não mais me importa. Mas sim, a força da minha vontade em estar ali, de pertencer aos domínios idealizados por um certo Eros Martim Gonçalves, essa força certamente era incomensurável.
Eu nunca duvidei. Jamais pestanejei sobre o que sou. Se eu dava indícios nas folhas e folhas rabiscadas da minha tenra infância, o tempo só deixou o sabor da minha natureza mais evidente. Eu sou uma autora. Quando toco no quadro que alguém outrora pintou, muda o quadro, e também mudo eu. Meu ofício primeiro é o de copular com o mundo e provocar desvios. E uma vez em um dos meus frutos, sabe-se lá que consequências serão inaladas.
Mas há um outro ofício, um que entendi ao longo da vida, um que nunca permiti ser óbvio pra mim. Muitos de meus antepassados foram professores, razão suficiente para que eu declinasse ao sinal da menor possibilidade de dar continuidade aos enterros declamados.
Apenas quando lá, na Escola, Martim Gonçalves conversou comigo. Eu sempre soube, desde o primeiro período de 6 meses em que fui aluna, eu desejei ser professora da Escola de Teatro da UFBA. Não acho que haja uma razão nobre, não me vem alguma. Tampouco acredito em uma missão contranatura, eu apenas desejei compartir, apenas transbordei dessa vontade, e não era no palco que me veria satisfeita desse querer.
Trabalhei pra realizar essa vontade arduamente, a verdade deve ser dita. Conversei com o Universo muitas e muitas vezes e não há um só dia em que eu duvide que estou vivendo o sonho. Jamais, nem por um segundo, me arrependi de ter me tornado professora, mesmo que a proximidade das duas experiências às vezes me faça estar na mesma sala de um antigo colega, agora em outra função. Tampouco tenho delírios de que levo alguma luz a algum lugar, pelamordedeus. Eu só posso ali exercer mais um pedaço do meu Sacerdócio, com verdade e intensidade que me são próprias, e é claro, ter meus apelos românticos.
Nesse último período de 6 meses, a tal da intensidade me levou a momentos de pura poesia, mesmo que a mais fétida e podre que se possa imaginar. Falo muito dos jardins da Escola, falo demais dos diáfanos e sagrados jardins da Escola, mas nos corredores está todo o lodo dos esgotos do ego humano, depositado em genenoras doses há mais de 50 anos. É fascinante perceber o quanto há de mesquinhez e maldade no cotidiano de qualquer ser que habite esse universo. Olhando de longe, é tudo tão cinza, morno, morto, patético.
O sentido da massa é o de não tocar, e isso é horrorosamente fascinante, já que o impulso é sempre o de se mostrar. Avaliações aqui são sempre bichos-papão com todos os requintes que podem ter, porque quase ninguém se lembra de que o jogo é pra ser jogado, e o contrato foi feito, assinado e tudo, no ato da matrícula.
E então há esse punhado de alunos, punhado mesmo, que pensa por si mesmo, que se recusa a ser bailarina de caixinha de música e olha pros lados, olha pras janelas e quase chega a ofuscar a vida com sua claridade. Eu sei, eu vi isso. Até aqui fui professora em 05 turmas e vi de tudo um pouco. Vi sonhos de grandeza, vi pessoas que só olham para espelhos – alguns com lente de ampliar, outros meio opacos -, vi pessoas que nem sabem onde estão, vi pessoas que simplesmente vão passar. Mas vi uns poucos que ficarão. Vi aqueles que estão vivos e a quem um dia a História chamará de Geração. Vi até aqueles que ocuparam meu lugar, que me fizeram ser aluna novamente, que reiteraram a certeza que tenho de que aprender é meu maior prazer.
Mas tudo, afinal, não passa de Alteridade, e aqui então nada se exclui, porque a fonte de pesquisa de um artista é o próprio mundo. Talvez o jovem Werther esteja rindo de mim, que ultrapasso os limites do drama, com meu eterno impulso de cortar os pulsos. Talvez tudo não passe de um ensurdecimento ao tão gritado Carpe diem. Talvez Salomão esteja certo. Tudo é vaidade, e um esforço para alcançar o vento.
Posso ser bem radical quando se trata do meu sacerdócio. Meu suor é feito de veneno viansatãnico. Não é por dinheiro, não é por moda, não é por profissão. Já se misturou a mim no nível celular, molecular, atômico. Não há que se entender nada os forasteiros, não me interessa os olhos esbugalhados de quem […]
Lumus, nosso primeiro espetáculo, será um daqueles marcos históricos que já nos são tão peculiares, e nem por isso menos grandioso. Após mais de 2 anos juntos, completaremos um ciclo, que se iniciou no ano passado e todas as perguntas filosóficas que nos impomos, e todas as respostas religiosas que obtemos. Lumus será a chegada […]
Sobre o ofício e seus ossos
Alguém já disse em algum lugar que qualquer pessoa é capaz de fazer qualquer coisa. Eu digo que não há perfeição nesse mundo, e essa é toda a graça que ele tem. Recentemente, conectar esses dois pensamentos se tornou um grande exercício pra mim, para entender que quando estamos vivendo o sonho, é de realidade que devemos chamá-lo.
Se estava escrito que um dia eu adentraria os espessos jardins daquela Escola, não mais me importa. Mas sim, a força da minha vontade em estar ali, de pertencer aos domínios idealizados por um certo Eros Martim Gonçalves, essa força certamente era incomensurável.
Eu nunca duvidei. Jamais pestanejei sobre o que sou. Se eu dava indícios nas folhas e folhas rabiscadas da minha tenra infância, o tempo só deixou o sabor da minha natureza mais evidente. Eu sou uma autora. Quando toco no quadro que alguém outrora pintou, muda o quadro, e também mudo eu. Meu ofício primeiro é o de copular com o mundo e provocar desvios. E uma vez em um dos meus frutos, sabe-se lá que consequências serão inaladas.
Mas há um outro ofício, um que entendi ao longo da vida, um que nunca permiti ser óbvio pra mim. Muitos de meus antepassados foram professores, razão suficiente para que eu declinasse ao sinal da menor possibilidade de dar continuidade aos enterros declamados.
Apenas quando lá, na Escola, Martim Gonçalves conversou comigo. Eu sempre soube, desde o primeiro período de 6 meses em que fui aluna, eu desejei ser professora da Escola de Teatro da UFBA. Não acho que haja uma razão nobre, não me vem alguma. Tampouco acredito em uma missão contranatura, eu apenas desejei compartir, apenas transbordei dessa vontade, e não era no palco que me veria satisfeita desse querer.
Trabalhei pra realizar essa vontade arduamente, a verdade deve ser dita. Conversei com o Universo muitas e muitas vezes e não há um só dia em que eu duvide que estou vivendo o sonho. Jamais, nem por um segundo, me arrependi de ter me tornado professora, mesmo que a proximidade das duas experiências às vezes me faça estar na mesma sala de um antigo colega, agora em outra função. Tampouco tenho delírios de que levo alguma luz a algum lugar, pelamordedeus. Eu só posso ali exercer mais um pedaço do meu Sacerdócio, com verdade e intensidade que me são próprias, e é claro, ter meus apelos românticos.
Nesse último período de 6 meses, a tal da intensidade me levou a momentos de pura poesia, mesmo que a mais fétida e podre que se possa imaginar. Falo muito dos jardins da Escola, falo demais dos diáfanos e sagrados jardins da Escola, mas nos corredores está todo o lodo dos esgotos do ego humano, depositado em genenoras doses há mais de 50 anos. É fascinante perceber o quanto há de mesquinhez e maldade no cotidiano de qualquer ser que habite esse universo. Olhando de longe, é tudo tão cinza, morno, morto, patético.
O sentido da massa é o de não tocar, e isso é horrorosamente fascinante, já que o impulso é sempre o de se mostrar. Avaliações aqui são sempre bichos-papão com todos os requintes que podem ter, porque quase ninguém se lembra de que o jogo é pra ser jogado, e o contrato foi feito, assinado e tudo, no ato da matrícula.
E então há esse punhado de alunos, punhado mesmo, que pensa por si mesmo, que se recusa a ser bailarina de caixinha de música e olha pros lados, olha pras janelas e quase chega a ofuscar a vida com sua claridade. Eu sei, eu vi isso. Até aqui fui professora em 05 turmas e vi de tudo um pouco. Vi sonhos de grandeza, vi pessoas que só olham para espelhos – alguns com lente de ampliar, outros meio opacos -, vi pessoas que nem sabem onde estão, vi pessoas que simplesmente vão passar. Mas vi uns poucos que ficarão. Vi aqueles que estão vivos e a quem um dia a História chamará de Geração. Vi até aqueles que ocuparam meu lugar, que me fizeram ser aluna novamente, que reiteraram a certeza que tenho de que aprender é meu maior prazer.
Mas tudo, afinal, não passa de Alteridade, e aqui então nada se exclui, porque a fonte de pesquisa de um artista é o próprio mundo. Talvez o jovem Werther esteja rindo de mim, que ultrapasso os limites do drama, com meu eterno impulso de cortar os pulsos. Talvez tudo não passe de um ensurdecimento ao tão gritado Carpe diem. Talvez Salomão esteja certo. Tudo é vaidade, e um esforço para alcançar o vento.
Talvez não seja demais gritar novamente.
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