© 2010 . All rights reserved. Count Cain - Bed of roses, by hatersal

A day in the life of a fool

Difícil dizer onde nasce o desejo. Ela estava com o coração machucado. Não com aquilo que dela ninguém pode tirar, mas com aquilo que ninguém mais pode ver. Depois que são construídos pedestais e relicários, costumam trancar a porta, e jogar a chave fora. É isso. Seu coração estava trancado em um relicário de cristal, mantido sob a segurança de uma fênix que fez morada em uma gaiola na maior das árvores. Caminho tortuoso, até abandonado, talvez. Pra quem tem a senda pontuada por Elementais luminosos, é possível dizer que a solidão é um mal aceitável. Então, ela havia abraçado a solidão dos imortais. Não que não tenha tentado fazer contato. Quis ardentemente viver uma certa história. Duas. Três. Ela não pediu que ninguém a fizesse Deusa. Mas sempre havia os que juravam que devia ser protegida.

O fato é que o acaso adora histórias de amor. Fez com que se encontrassem em uma praça com flechas de desejo disfarçadas de arame retorcido. Fez o vento noturno sussurrar sorrisos, soprar o cheiro doce do beijo que ainda esperava pra acontecer. O acaso fez tudo bem devagar, com capas de invisibilidade e relutâncias fingidas. O acaso dispôs galhos secos e sacerdotes incendiários no caminho pra que a corrida se tornasse ventura. O acaso fez, e fez bem direito.

Agora a lembrança da suave gargalhada dela alimenta de suspiros sua selva de pedra particular. Agora a forma daqueles lábios movimenta seus dias cinza, agora a chave está cada vez mais perto, basta apenas esticar a mão. Agora, quando ela fecha os olhos, pode se ver flutuar e invadir janelas abertas, pintar quadros com o corpo todo, tomar todos os vinhos que aparecerem em cálices por aí.

É a visão de uma tarde brilhante, ao som de um semideus que canta jazz e atende pelo nome de Frank Sinatra, o gosto inconfundível da sua boca, o cheiro quente do seu colo, a textura enebriante da sua pele, o som macio da sua voz, o movimento distraidamente erótico de sua respiração, que a fazem estender mais e mais a mão, antes que o sonho termine por mais uma noite e ela perceba que não há nada mais que uma ninfa do acaso brincando de fazê-la despertar.

E para ela, sentir-se tola é quase uma benção. Tola de desejo então, quase uma utopia. Com você é como se a absolutamente tola que ela se torna estivesse em uma cama de rosas, esperando, entregue, pelo próximo toque relutante, enquanto seus olhos tímidos e vorazes, aqueles com a pupila dilatada, a fazem perder absolutamente a fronteira entre o sonho e a realidade.

______

A day in the life of a fool (Frank Sinatra)

A day in the life of a fool
A sad and a long lonely day
I walk the avenue
And hope i’ll run into
The welcome sight of you
Coming my way
I stop just across from your door
But you’re never home any more
So back to my room
And there in the gloom
I cry tears of good bye
(that’s the way it will be every day in the life of fool)
______
Ilustração: Count Cain – Bed of roses, by hatersal

Share on Tumblr

Bookmark and Share
  • RSS Outro jardim que cultivo: GRIMÓRIO

    • Luigi Pareyson e eu
      Ai, esse italiano e eu não nos desgarramos mais. Cada vez mais íntimos, mesmo com as dificuldades típicas da minha desordenada condição de vinho-novo, ele sussurra seus segredos para que eu verta minha dissertação, adicionando mais à poção que um santo-velho-louco me incumbiu de preparar. Dá medo. E eu gosto.   P.S. Tenho a impressão […]
    • Sobre ansiedade
      Não temos pressa. Andamos devagar para chegar mais longe. […]
  • Do Caos, meu tumblr

    • photo from Tumblr

      02/03/12

    • Pois eu, eu só penso em você
      Já não sei mais porque
      Em ti eu consigo encontrar
      Um caminho, um motivo, um lugar
      Pra eu poder repousar meu amor
      Los Hermanos

      02/03/12

    • photo from Tumblr

      Sonho.


      02/03/12

    • photo from Tumblr

      02/03/12

    • photo from Tumblr

      02/03/12

4 Comentários

  1. Publicado 31 ago ’10 em 22:57 | Permalink

    Li uma vez, e li de novo. Acho que para ser sóbrio é necessário ser ébrio. E seus textos me deixam tonto nos primeiros goles.

  2. Rafael Pellens
    Publicado 3 set ’10 em 15:41 | Permalink

    Intenso! Muito intenso!

  3. Publicado 1 out ’10 em 16:36 | Permalink

    Demorarei pra me recuperar do q li nesse texto. Cara, vc consegue traduzir coisas q a gente ainda nem imaginou. Essa coisa sobre o acaso, isso é muito verdadeiro.
    Não vou resistir. Lerei seus textos todos novamente.
    Como é bom ler vc!
    Nico.

  4. Enoe
    Publicado 10 jul ’11 em 11:36 | Permalink

    Esse texto ficará sempre na minha memória.

Comentar

Seu email nunca será publicado ou distribuído. Campos obrigatórios estão marcados com *

*
*

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

Usuários do Twitter
Clique no botão abaixo para efetuar o login usando sua conta do Twitter.

Subscribe without commenting


Login