Difícil dizer onde nasce o desejo. Ela estava com o coração machucado. Não com aquilo que dela ninguém pode tirar, mas com aquilo que ninguém mais pode ver. Depois que são construídos pedestais e relicários, costumam trancar a porta, e jogar a chave fora. É isso. Seu coração estava trancado em um relicário de cristal, mantido sob a segurança de uma fênix que fez morada em uma gaiola na maior das árvores. Caminho tortuoso, até abandonado, talvez. Pra quem tem a senda pontuada por Elementais luminosos, é possível dizer que a solidão é um mal aceitável. Então, ela havia abraçado a solidão dos imortais. Não que não tenha tentado fazer contato. Quis ardentemente viver uma certa história. Duas. Três. Ela não pediu que ninguém a fizesse Deusa. Mas sempre havia os que juravam que devia ser protegida.
O fato é que o acaso adora histórias de amor. Fez com que se encontrassem em uma praça com flechas de desejo disfarçadas de arame retorcido. Fez o vento noturno sussurrar sorrisos, soprar o cheiro doce do beijo que ainda esperava pra acontecer. O acaso fez tudo bem devagar, com capas de invisibilidade e relutâncias fingidas. O acaso dispôs galhos secos e sacerdotes incendiários no caminho pra que a corrida se tornasse ventura. O acaso fez, e fez bem direito.
Agora a lembrança da suave gargalhada dela alimenta de suspiros sua selva de pedra particular. Agora a forma daqueles lábios movimenta seus dias cinza, agora a chave está cada vez mais perto, basta apenas esticar a mão. Agora, quando ela fecha os olhos, pode se ver flutuar e invadir janelas abertas, pintar quadros com o corpo todo, tomar todos os vinhos que aparecerem em cálices por aí.
É a visão de uma tarde brilhante, ao som de um semideus que canta jazz e atende pelo nome de Frank Sinatra, o gosto inconfundível da sua boca, o cheiro quente do seu colo, a textura enebriante da sua pele, o som macio da sua voz, o movimento distraidamente erótico de sua respiração, que a fazem estender mais e mais a mão, antes que o sonho termine por mais uma noite e ela perceba que não há nada mais que uma ninfa do acaso brincando de fazê-la despertar.
E para ela, sentir-se tola é quase uma benção. Tola de desejo então, quase uma utopia. Com você é como se a absolutamente tola que ela se torna estivesse em uma cama de rosas, esperando, entregue, pelo próximo toque relutante, enquanto seus olhos tímidos e vorazes, aqueles com a pupila dilatada, a fazem perder absolutamente a fronteira entre o sonho e a realidade.
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A day in the life of a fool (Frank Sinatra)




4 Comentários
Li uma vez, e li de novo. Acho que para ser sóbrio é necessário ser ébrio. E seus textos me deixam tonto nos primeiros goles.
Intenso! Muito intenso!
Demorarei pra me recuperar do q li nesse texto. Cara, vc consegue traduzir coisas q a gente ainda nem imaginou. Essa coisa sobre o acaso, isso é muito verdadeiro.
Não vou resistir. Lerei seus textos todos novamente.
Como é bom ler vc!
Nico.
Esse texto ficará sempre na minha memória.