Seu destino sempre foi o ouro. Jamais tive dúvidas. Só cuidei pra que o sim pudesse habitar sua existência, pra que pudesse regar suas experiências. Se fui um carrasco, se fui corrosiva à sua pele de menina, se fui tão vilã assim, também foi por ostentar as verdades das quais me vesti. E por mais louca que seja essa tempestade que sopra casas pelos ares, por mais que o Kansas já esteja longe de nós duas, haverá sempre um rebelde da motocicleta pra nos dar carona de volta pra casa. Porque eu fui mais do que contaminada com o seu dom de me levar ao Olimpo em poucos segundos com seus olhos gulosos e a textura alucinante da sua língua. Você também me fez insanamente mais do que sou. Mas agora, a música mudou, ou talvez a música tenha entrado no jogo de uma vez. Agora a conversa é outra, é hora da fada tornar-se mulher de corpo inteiro, pegar nas mãos os raios e galopar no cavalo dos ventos, como é seu destino, rumo ao ouro do Sol, rumo às leoas que te amarão com toda a santa intensidade que te pode ser presentada. Eu sei, porque é assim que um Leão me tomou e não faço a menor questão de não ser caça. Eu sei, porque o Caos que pulsa em meu coração diz que os tempos desse ano-par são outros. É tempo de queimar o passado e engolir doses generosas da paz do fim dos tempos. E se escolhi me deitar na cama da justiça, preciso te (nos) libertar para as inconsequências deliciosas que só o futuro pode sussurrar, rabiscar, propor. E se o preço for o seu ódio, eu lembrarei que isso nada mais é do que o duplo do amor. Pois que arda então, até o fim. Que queime com marcas de ferro no seu coração cada um dos momentos. Toda a sua determinação, toda a sua credulidade, todas as suas risadas nas quais me embriaguei. Todos os biquinhos, todos os arranhões, todos os beijos que me viciaram. Os ecos das noites rock’n roll que protagonizamos. E você jamais me conheceu tanto assim. Tampouco o séquito de desocupados que te acompanha alcança qualquer gemido que ouvimos a sós. O difícil vai ser encarar a cruel verdade. Você está pronta, e a culpa jamais caiu bem em mim. Do meu jeito torpe, eu amei você. Um amor envolto em fumaça, amor de filme noir, eternizado pela beleza de seu final infeliz, onde todos olham para um horizonte misterioso e pousam um copo de conhaque ao lado da máquina de escrever, que sombreia mais uma história de desejo e morte. E a morte é só o começo. Sempre. Agora vá.


Um Comentário
Lindo texto Amandita. E com o amor e o ódio não se brinca. Se brinda e se toma em um gole imenso.