© 2011 . All rights reserved. Amanda Set, 3 2011

Bang, bang

(Ou, o texto em que escrevi a palavra não milhares de vezes)

 

Quero me lembrar exatamente da sensação.

Eu sabia que esse meu problema oftalmológico acabaria por prejudicar a minha vida em algum momento, em algum ponto. Não pode ser saudável enxergar os detalhes primeiro. Leva tempo pra formar o todo na mente. Daí você leva muito mais tempo pra formar uma opinião sobre aquilo que está bem na sua frente. É assim. É exatamente assim que acontece. A ficha demora milênios pra cair de fato, ou quando cai você já está absolutamente contaminado pela primeira percepção, que não é do todo, é só do detalhe. Eu vejo o mundo assim desde que abri os olhos pela primeira vez, nisso eu realmente não tenho escolha. E essa condição congênita moldou toda e qualquer perspectiva que eu tenho da vida. Não tem jeito. Eu vejo, eu sempre verei os detalhes primeiro. Não há poesia nisso. Nunca haverá. Não pra mim.

Então, eu sou lenta. Pra enxergar, eu digo. Mas é óbvio que não é só nisso. Toda essa inata situação em que me encontro fez de mim um ser absurdamente cauteloso pra formar opiniões, pra me entregar a elas. Também fez de mim alguém viciada em analisar possibilidades e pessoas. Estaria tudo certo se eu não fosse movida pela Vontade. Explico. Do que adianta toda essa cautela imbecil se vou me apaixonar do mesmo jeito? Se vou acreditar, se vou esperar que cumpram as promessas que me fazem? Se vou lembrar de tudo? Se só direi a amaldiçoada verdade?

Ando imaginando universos alternativos ultimamente. Onde eu só faço as coisas certas. Onde minhas decisões são pautadas pelas sensações dolorosas conduzidas por minha compulsão pela sinceridade expressa. Onde eu apago definitivamente aquilo que me machuca. Nesses universos as pessoas também me enxergam pelo que sou, não só pelo que pareço.

Não. Acho que ainda não cheguei ao ponto que realmente quero atingir. É assim. É que eu me apego aos detalhes. Meu coração é conduzido pelos detalhes que formam as pessoas. A minha perspectiva fragmentada sempre me diz que elas não são uma coisa só. Assim, quando finalmente entendo que alguém me faz mal, já é tarde demais. Já me apeguei. Já me fiz prisioneira. Que escorpiana de merda que eu sou.

Preciso aprender a dizer não. Preciso aprender a me lembrar da horrenda sensação de ser tratada com absoluto desprezo por quem não é digno de todo o amor que eu tenho pra dar. Afinal, quem disse que elas são obrigadas? Preciso aprender a dizer um grande e sonoro ‘VÁ SE FUDER’ àqueles que simplesmente não se importam. Oh, sim. Eu sei muito bem que já não tenho idade pra ser Hamlet. Estou mais pra um projeto de Rei Lear, não é? Não, eu não sou boazinha, outra condição que nasceu comigo. E ainda assim minha alma sabe se derramar em bem querer. Simplesmente me recuso a aderir à modinha do circo sem futuro. Vai entender. De uma coisa eu sei. Dos círculos, dos lados escuros, do Retorno. Talvez por ser essa escorpiana de merda, confio com toda a fé de cada gota do venenoso sangue que corre em minhas veias que a justiça sempre será feita. E estarei olhando nos olhos quando a lâmina abrir um sorriso largo no pescoço daquele que um dia ousar sorrir escarnecido do meu incomensurável desejo de amar. Daí eu sorrirei de volta com todo o prazer que minha natureza ansiosa me concede.

É simples, afinal. O diabo mora nos detalhes. Não me queira como inimiga. Demoro. Mas um dia, pedaço por pedaço, enxergo tudo.

Preciso aprender a dizer não. Preciso lembrar da sensação.

Nota mental feita. Que gire a roda do Tempo.

 

Eu bem que te avisei, meu amor. Milhares de vezes.

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Um Comentário

  1. Publicado 20 set ’11 em 23:27 | Permalink

    Não te vejo lenta. Não vejo NÃO. Vejo SINceridade. Te vejo cinza. Não enxergo os seus detalhes-diabos como sei que enxerga os meus. Te vejo cinza mas sei que a cor é outra. Me falta um outro olhar, um olhar de outro tempo, de outra atmosfera, que não é essa que o ‘cronos’ tem nos reservado.

    Algo mais nos une. Enxergamos o mundo de forma diferente e não existem lentes que possam corrigir nossos olhos, literalmente.

    Você é íris de colar vitral.

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