Não brinque assim. Você já é tão grande que adentrou o agora. Maldito seja o enlace entre passado e presente, embora maldito seja tudo o que não se aplica a você. Se eu explicasse de longe, talvez usasse um híbrido de redenção e desejo pra dizer o que acontece quando ouço sua voz. Diria também que não quero mais do que fazer dos seus braços ninho quente, que protege e aquece. Isso se. Mas não há distância entre ver e sentir. O que me aquece é sua boca em meu colo, fazendo de conta que nada acontece enquanto me tira do sério. O que me aquece é o vício de ceder aos seus olhos, sua risada, suas mãos. Por que tenho tanta certeza do quanto você me vê? É certo, eu devia fazer a lista do que não-pode-ser. Lá estariam o nome que só você usa pra me chamar, seu cuidado com meu semblante, meus dedos enrolando seu cabelo, minhas mordidas no seu braço, seus beijos no meu pescoço. E o mundo-nosso que a cada dia maior fica. Devia pegar essa lista e queimar três vezes pra ter certeza. Mas não há certeza entre ver e sentir. O que queima é minha vontade de relembrar o escuro dos teatros. O que queima é o desejo contido em cinco segundos de olhares cruzados em silêncio. Fico perdida entre a pureza da sua alma e minha natureza pecaminosa, que dançam lânguidas como se não houvesse véu algum. Como se os empedimentos de nada soubessem. Como se não houvesse nada além dos domínios de nosso encantamento. É certo, essa deveria ser a carta-adeus. Meus olhos deveriam achar você transparente. Só teorias deveriam ser ouvidas. Mas o certo jamais gostou de mim, ainda que eu me sinta sinceramente pequena diante desse futuro incerto. Porque com você tudo é futuro do pretérito ou pretérito imperfeito, invenção, ficção, outra verdade que ficou muito além do espelho, é fazer o dia rir pra não gritar o que está mais do que estampado em todos os anúncios, em todas as placas, é negar, renegar qualquer poder, é fazer rascunhos de sublimação, é tão somente mentir. Mas não há mentira entre ver e sentir. Já entendi que é tudo reflexo do além-mar, do azul que me esconde e observa sereno, pra um dia, desavisadamente, me matar. E você brinca, brinca, brinca de ficar no entre uma coisa e outra, e paralisa ao menor sinal de coisa séria, só pra me fazer esquecer de querer abrir mão de te querer. Bem que essa podia ser só mais uma brincadeira e não me lembrar de frases inacabadas e pés que levitam. Já estou mais que perdida entre os tempos, já não sei mais não me odiar por cobiçar o proibido. Encontrei um anjo só pra entender que Lúcifer foi mais do que bem esculpido com mãos renascentistas. Quem dera você fosse uma estátua de mármore.
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E se acontecer de dar certo
E nossos dedos se encaixarem bem
E nossos pés dispensarem os traços
Que ensinam a dança
E rodarem tontos por todo o lugar
Onde a gente, de repente, pode se encontrar.
Por sorte, destino ou engano.
Vai que, de repente, eu te amo.
Vai que acontece eu chegar
E aparar seu corpo antes do chão
Ou, ao me ver, ainda no ar,
Você criar asas
Passar rasante assustando a platéia
E pela mão, de repente, por descuido ou surpresa.
Você me carregar pra qualquer canto
Vai que, de repente, eu te amo.
Pode ser do acaso brincar com a gente
E empurrar as paralelas das nossas vidas
Criando um ponto em comum
Vai que, perdido, eu embaralhe as frases.
E embaralhado em alguma delas você me ache
E transforme essa vida engasgada em um canto
Vai que, de repente, eu te amo.
(Vai que de repente, Luisão Pereira e Mateus Borba. Dois em Um)
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Imagem: Le génie du mal, de Guillaume Geefs, 1848.




Um Comentário
Sempre de repente!… Mas. E agora?