© 2010 . All rights reserved. anjocaido_thumb.jpg

A verdade do pretérito imperfeito

Não brinque assim. Você já é tão grande que adentrou o agora. Maldito seja o enlace entre passado e presente, embora maldito seja tudo o que não se aplica a você. Se eu explicasse de longe, talvez usasse um híbrido de redenção e desejo pra dizer o que acontece quando ouço sua voz. Diria também que não quero mais do que fazer dos seus braços ninho quente, que protege e aquece. Isso se. Mas não há distância entre ver e sentir. O que me aquece é sua boca em meu colo, fazendo de conta que nada acontece enquanto me tira do sério. O que me aquece é o vício de ceder aos seus olhos, sua risada, suas mãos. Por que tenho tanta certeza do quanto você me vê? É certo, eu devia fazer a lista do que não-pode-ser. Lá estariam o nome que só você usa pra me chamar, seu cuidado com meu semblante, meus dedos enrolando seu cabelo, minhas mordidas no seu braço, seus beijos no meu pescoço. E o mundo-nosso que a cada dia maior fica. Devia pegar essa lista e queimar três vezes pra ter certeza. Mas não há certeza entre ver e sentir. O que queima é minha vontade de relembrar o escuro dos teatros. O que queima é o desejo contido em cinco segundos de olhares cruzados em silêncio. Fico perdida entre a pureza da sua alma e minha natureza pecaminosa, que dançam lânguidas como se não houvesse véu algum. Como se os empedimentos de nada soubessem. Como se não houvesse nada além dos domínios de nosso encantamento. É certo, essa deveria ser a carta-adeus. Meus olhos deveriam achar você transparente. Só teorias deveriam ser ouvidas. Mas o certo jamais gostou de mim, ainda que eu me sinta sinceramente pequena diante desse futuro incerto. Porque com você tudo é futuro do pretérito ou pretérito imperfeito, invenção, ficção, outra verdade que ficou muito além do espelho, é fazer o dia rir pra não gritar o que está mais do que estampado em todos os anúncios, em todas as placas, é negar, renegar qualquer poder, é fazer rascunhos de sublimação, é tão somente mentir. Mas não há mentira entre ver e sentir. Já entendi que é tudo reflexo do além-mar, do azul que me esconde e observa sereno, pra um dia, desavisadamente, me matar. E você brinca, brinca, brinca de ficar no entre uma coisa e outra, e paralisa ao menor sinal de coisa séria, só pra me fazer esquecer de querer abrir mão de te querer. Bem que essa podia ser só mais uma brincadeira e não me lembrar de frases inacabadas e pés que levitam. Já estou mais que perdida entre os tempos, já não sei mais não me odiar por cobiçar o proibido. Encontrei um anjo só pra entender que Lúcifer foi mais do que bem esculpido com mãos renascentistas. Quem dera você fosse uma estátua de mármore.

_______

E se acontecer de dar certo
E nossos dedos se encaixarem bem
E nossos pés dispensarem os traços
Que ensinam a dança
E rodarem tontos por todo o lugar
Onde a gente, de repente, pode se encontrar.
Por sorte, destino ou engano.
Vai que, de repente, eu te amo.
Vai que acontece eu chegar
E aparar seu corpo antes do chão
Ou, ao me ver, ainda no ar,
Você criar asas
Passar rasante assustando a platéia
E pela mão, de repente, por descuido ou surpresa.
Você me carregar pra qualquer canto
Vai que, de repente, eu te amo.
Pode ser do acaso brincar com a gente
E empurrar as paralelas das nossas vidas
Criando um ponto em comum
Vai que, perdido, eu embaralhe as frases.
E embaralhado em alguma delas você me ache
E transforme essa vida engasgada em um canto
Vai que, de repente, eu te amo.

(Vai que de repente, Luisão Pereira e Mateus Borba. Dois em Um)

_______

Imagem: Le génie du mal, de Guillaume Geefs, 1848.

Share on Tumblr

Bookmark and Share
  • RSS Outro jardim que cultivo: GRIMÓRIO

    • Luigi Pareyson e eu
      Ai, esse italiano e eu não nos desgarramos mais. Cada vez mais íntimos, mesmo com as dificuldades típicas da minha desordenada condição de vinho-novo, ele sussurra seus segredos para que eu verta minha dissertação, adicionando mais à poção que um santo-velho-louco me incumbiu de preparar. Dá medo. E eu gosto.   P.S. Tenho a impressão […]
    • Sobre ansiedade
      Não temos pressa. Andamos devagar para chegar mais longe. […]
  • Do Caos, meu tumblr

    • photo from Tumblr

      02/03/12

    • Pois eu, eu só penso em você
      Já não sei mais porque
      Em ti eu consigo encontrar
      Um caminho, um motivo, um lugar
      Pra eu poder repousar meu amor
      Los Hermanos

      02/03/12

    • photo from Tumblr

      Sonho.


      02/03/12

    • photo from Tumblr

      02/03/12

    • photo from Tumblr

      02/03/12

Um Comentário

  1. Publicado 25 mai ’10 em 19:30 | Permalink

    Sempre de repente!… Mas. E agora?

Comentar

Seu email nunca será publicado ou distribuído. Campos obrigatórios estão marcados com *

*
*

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

Usuários do Twitter
Clique no botão abaixo para efetuar o login usando sua conta do Twitter.

Subscribe without commenting


Login