Do inconfessável

 

Quando eu era criança algumas coisas eram suficientes para fazer minhas tardes. Bastava uma toalha e um pregador de roupa.

A tolha eu jogava sobre as costas. Puxava as pontas direita e esquerda da parte que ficava sobre os ombros. As unia com o pregador. Pronto. Estava feita a minha capa, e eu preparado para ser um super-herói. Qual? Qualquer um que tivesse capa. Superman, Batman, muitas vezes nenhum. Era apenas eu mesmo voando pela sala, pelos quartos, pela cozinha. Era apenas eu imaginando, sonhando.

Era um pequeno ritual. Era necessário uma performance, afinal eu estava me transformando. Não era só colocar a capa, havia uma postura, um olhar, uma forma de erguer o queixo para que o pescoço pudesse ser adornado por aquela toalha e aquele pregador de roupas. Dou risada quando lembro. Eu já fui super-herói.

E até hoje minha imaginação me assalta a mente. A vergonha me impediu de confessar, de ver, que quando estou na frente do espelho não sonho em ser outros personagens. Sonho que sou eu. Um Super-Eu. Um Sobre-Eu. Um eu melhor que eu. Um mundo feito melhor por mim.

Mas o tempo me fez formular uma teoria, que jogo como perguntas por me sentir ainda inseguro. E se a realidade não é só realidade? E se ela for sonho, ao menos também? E se tudo o que há nela são como peças de lego, como massinha de modelar? E se tudo o que eu tiver que fazer seja jogar sem medo de perder? E se o teatro for vida? E se eu já for tudo o que sonho ser?


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