O pequeno monstro na memória do velho solitário

Nada no e-mail. Achei que alguém tinha batido na porta. Não era ninguém.

Nenhuma mensagem no celular. Vi os corredores de casa na esperança de encontrar algum fantasma. Eles não existem.

Vejo quem o café na caneca reflete. A pessoa lá dentro não responde nenhuma das minhas perguntas.

Coloco a cabeça fora da janela. Em cima de mim há o céu que me cerca. Nem ao menos deixa um eco como troco dos gritos que dou para dentro.

Mesmo assim, mesmo assim, ainda tenho o suficiente. Coloco minha calça, minha camisa e meu chapéu para cobrir a calvice. O apartamento foi fechado à vácuo assim que bati a porta, fazendo dele reduto opressor de lembranças silênciosas.

Mas memórias ruins são como coisas que se engancham atrás de você. Eu tinha uns 5 anos, talvez um pouco mais. Meus colegas me pertubavam por achar que eu e ela estavamos namorando.

Impossível. Ela era estranha. Tinha imensos óculos fundo de garrafa, dentuça, cabelo cacheado, revoltado e era alta demais para a idade. Idiotas, era só minha amiga.

Ela um dia me entregou uma carta. “Sei que os outros falam que namoramos. Mas somos amigos, e gosto muito de ser sua amiga”.

Eu amassei a carta e joguei no lixo. Me afastei, evitei, virei o rosto, fiquei em silêncio, sentia os olhos dela bem atrás de mim até conseguir que ela se perdesse entre os milhares de garotos e garotas dos corredores.

Entre milhares é que eu estou hoje, mais um rosto em um homem qualquer. Um rosto adulto.

Sentado em um banco no parque, vejo o vento remexendo papéis nas latas de lixo. Quantas cartas eu amassei até chegar onde estou?

E o que importam os números. Fiz o que fiz.


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