Numa tarde que misturava sol e chuva, numa sala de estar, com a fumaça preenchendo o ambiente, ocorreu o encontro. Uma entrevista com os diretores da remontagem do dramatículo O Jardim Secreto, que ganha quatro versões, quatro encenações, quatro pontos-de-vista simultaneamente distintos e convergentes. São Amanda Maia, Jones Mota, Marie e Victor Diomondes os que apontam os caminhos. Com produção do Coletivo de Artistas Cênicos Teatro Saladistar, texto da própria Amanda e estreia marcada para hoje, na sala 5 da ETUFBA, às 19h00, no projeto Ato de 4 Especial: Saladistar no Ato, O Jardim Secreto comemora seus 5 anos de vida – exatamente no mesmo mês, em 2006, o texto tomou carne pela primeira vez – com a celebração da coletividade.![]()
Tudo começou quando Amanda, ainda em sua época de estudante da Escola de Teatro, incentivada pelos professores, decidiu participar do Ato de 4. No momento, ela sentia a necessidade de escrever sobre assuntos que causavam tensão em sua vida. Pela primeira vez, a autora conseguiu transformar inquietações em teatro e fez questão de montar o texto que escrevera. No elenco original havia Camila Sarno, Helena Marfuz, Fábio Nieto Lopez e Rafael Pellens.
“O dramatículo é divido em quatro partes. Na primeira, Luísa e Inês partilham o cúmplice momento de lembrar o que foi feito dos homens de suas vidas. O último dá lugar ao confronto das duas com o verdadeiro desejo. Os demais quadros apresentam uma interseção de memória e delírio, onde são apresentados aqueles que cruzaram o caminho das duas personagens”, explica a diretora. A história retrata o universo feminino e o quão enganados os homens estão sobre ele. Entre lembranças e devaneios, a narrativa das duas garotas se desenvolve.
Uma semente do que seria o Teatro Saladistar, O Jardim Secreto ressurge agora da vontade de comemorar o tempo que se passou, pelo fato do grupo acreditar ideologicamente na coletividade, pelo desejo de fazer uma ode à capacidade existente na equipe de trabalhar em conjunto. Esse trabalho é um desafio para o Saladistar e uma oportunidade do público de ter visões múltiplas de uma temática: o amor, que revela o desejo sexual entre duas mulheres e a descoberta disto.
Para o retorno da montagem, a escolha de inseri-la no Ato de 4, projeto de extensão da Escola de Teatro que visa proporcionar a experimentação cênica, o exercício da prática teatral, não foi à toa. Para o Saladistar, o espaço é subvalorizado pelos estudantes da Escola. Essa é uma oportunidade de lembrá-los da vital importância deste projeto. Victor, que já foi integrante da equipe do Ato, acredita que este é o lugar de encontro dos alunos. “Além de ser um espaço de experimentação, [o Ato de 4] tem um potencial de coletivo muito grande. É muito mais do que você ser ator ou diretor. É você poder se alimentar daquilo ali. Você não está só na Escola para pegar seu diploma e cair fora.”, defende.
Seguindo o formato do Ato, O Jardim Secreto ficará em cartaz durante todas as segundas-feiras desse mês, estreando hoje, e cada cena terá duração de quinze minutos; a entrada é franca e as senhas são distribuídas trinta minutos antes do início. Os elencos são compostos pelos atores Alana Ferreira, Amanda Shapovalov, Ana Tereza Mendes, Águeda Tavares, Ângelo Pinheiro, Carluce Couto, Daniel Moreno, Daniel Rabello, Enoe Lopes Pontes, Jéssica Andrade, Juma Mascarenhas, Marco Kipman, Mirela Gonzalez, Moreno Matos e Saulus Castro.
ENTREVISTA
Enoe Lopes Pontes – Amanda, qual é a sua concepção para a montagem da peça?
Amanda Maia – Eu parto da ideia de que os homens se precipitam quando tentam imaginar como é o universo ao qual pertencem as mulheres. Eles acabam muitas vezes se equivocando nas visões que têm. Visões que, no meu entendimento, não são erradas, sim ingênuas. As duas personagens permeiam universos além do delas e se divertem ao realizar fantasias dos homens. Eu faço, também, esse contraste entre o mundo dos delírios dos homens, com o mundo delas, que é o real. Lugar onde elas são realmente desafiadas com desejos reais. Visualmente, eu coloco isso numa plataforma que tem um pouco de urbanidade, misturada com um pouco de romance, de atmosfera romântica. Então, eu caminho aí pela década de 80, 90. Isso para estabelecer o visual, embora seja muito mais uma ideia vintage do que, de fato, uma reconstrução histórica. Porque elas não têm um momento específico. A peça não fala que elas estão num determinado momento de tempo e espaço. Então a gente pode colocar onde quiser.
ELP – E aos outros diretores, quais as suas concepções?
Victor Diomondes – A concepção parte da sensação que tenho quando leio os textos da autora. São textos muito fortes. Mexem muito comigo, e acredito que mexam com muitas pessoas também. E, em O Jardim Secreto, existe uma sensação intensa que é passada, que cresce como uma torrente. Eu quero isso para a forma como os atores vão trabalhar e é essa a sensação que eu queria que o público tivesse.
Marie – Eu busco abordar aquilo que é essencial ao ser humano, tentando relacionar com o fato de que o desejo faz parte do que é essencial. Em especial, neste texto, o desejo de uma personagem pela outra, um desejo proibido, por algo que a sociedade não considera comum. Visualmente, eu quero algo mais antigo, justamente para instalar ainda mais a questão do proibido. Assim a história se passará no século XIX, já que, neste período, era ainda pior uma relação homoafetiva. Além de tudo isso, tem o corte, que eu fiz, das personagens masculinas. Eles só irão aparecer no que as meninas dizem. Porque eu acho que eles somente passam na vida delas. Mas o que está em jogo ali é a relação que elas constroem uma com a outra. Até chegar à confissão daquele desejo. Isto é o que há essencial mesmo naquele sentimento, o que está realmente exposto e o que pode realmente atingir o público.
Jones Mota – Pensando na dramaturgia, para mim, é como um labirinto sem saída. Existe toda uma descoberta do que é o texto. Esse estudo é o primeiro passo para a construção de cena com os atores, porque nas entrelinhas tem muita coisa. Em relação a imagem, trarei a narrativa para o tempo atual. Isso que Marie acabou de falar sobre a dificuldade ser maior antigamente é verdade, mas isso ainda é um grande tabu. Neste contexto, o lugar será o Brasil. Minha escolha parte da proximidade com as referências [dadas no texto dramático]. Somos uma equipe jovem, quis puxar ao máximo para a nossa realidade. Pensando nas personagens, dividi a peça em planos: o plano do real, o plano da memória e o plano do delírio. E eu e meu elenco percebemos que cada personagem tem uma característica forte de um signo. Por isso faremos um estudo astrológico de cada personagem. Sem se fechar nisto, porém. Na verdade, é para ser uma base de criação.
AM – Sobre isso que os meninos acabaram de falar penso que pelo lirismo do texto – porque ele era um grito transformado em teatro – eu sugiro que em algum momento aquilo é memória, mas é delírio. Contudo pode ficar a caráter de quem vai fazer, de quem vai montar. Agora, acho engraçado o que Marie falou sobre o século XIX e Jones sobre a modernidade. Isto tem totalmente a ver com o que penso sobre a ingenuidade. Porque as mulheres, elas podem fazer muitas coisas que os homens não podem fazer na vida social e isso é desde sempre. Elas podem ter uma proximidade e criar uma relação maior. Isso para mim só reforça a inocência que existe no olhar do homem em relação ao universo das mulheres. Porque, às vezes, está rolando um desejo muito intenso e ninguém é capaz de notar. Então essa visão rasa que se tem do universo feminino e de como isso pode ferrar com a vida de um cara, se ele escolher ver dessa forma, é algo que me instiga muito.![]()
ELP – Quais são as expectativas de cada um, em relação ao resultado do processo e da peça?
M – Minhas expectativas são sempre as melhores. Eu sempre espero que tudo dê certo. E espero que o público se sinta atingido com isso, não saia de lá em branco, da mesma forma que entrou, mesmo que eles me odeiem. Antes isso do que saírem sem sentir nada.
JM – Eu acho que a palavra é exatamente essa: sentir. Porque lendo o texto você já sente algo que te pega pelas vísceras. Mas a minha preocupação é essa. Será que o público vai ser abrir a ponto de se permitir sentir ou vai ficar só na casca, tentando só entender, sem sentir?
M – Mas é também um trabalho nosso, da direção, quebrar esta casca do público mesmo que eles não queiram, trabalho nosso e do elenco atingi-los, mesmo com alguma resistência.
JM – E um dos meus ideais é que, na passagem de uma cena para outra, a gente não perca o público.
M – Sim, que a gente envolva o público cada vez mais.
VD – Eu estou confiante de que vai ser bom, como já está sendo bom. Espero que, pelo menos, o público não saia como entrou, e espero isso também de mim. [risos]. E realizar um trabalho desses, no qual a gente exercitará nosso olhar em torno de um texto, é muito importante. E acho que o público do Ato de 4 vai ser mexido mesmo, o tempo inteiro, e vai ser levado a pensar de diversas formas esse texto. Então estou com a expectativa de ser algo muito bom e muito gostoso.
ELP – Victor, como esse é seu primeiro trabalho na direção, como você se sente nessa posição?
VD – Eu não tenho dúvidas em relação ao resultado que vou conseguir, por mais que tenha dúvidas do que vai ser e como fazer. Eu, realmente, não sinto que vá me decepcionar em relação ao que farei, mas há uma insegurança por ser um compromisso tão grande. Apesar disso, de toda a responsabilidade, estou bem otimista em relação ao resultado. Minhas maiores preocupações são sentir prazer fazendo e que o elenco tenha também o mesmo sentimento.
ELP – Jones, você também é atuante do Núcleo Viansatã de Investigação Cênica do Teatro Saladistar. O que você sente agora na posição de diretor em um outro projeto dentro do Coletivo?
JM – Para mim é fantástico. Porque já tive dúvidas, pensando: ‘puxa, mas no Saladistar eu sou só ator? Mas eu não sou só ator. E onde fica o eu-diretor-produtor?’ Depois, as oportunidades foram surgindo e eu fiquei muito feliz com isso. Porque a ideia do coletivo fica ainda mais clara, ou seja, que estou aqui, mas não estou fechado em um projeto somente. Eu posso fazer parte de vários e trabalhar com pessoas que convivo, gosto e diálogo.
ELP – Marie, você entrou na Escola agora, é uma diretora em formação. Quais são seus anseios em relação ao seu primeiro trabalho com o Saladistar?
M – Eu espero que não frustre, que não fique decepcionada com o trabalho que realizarei. Mas, só estar no Saladistar, já é uma quebra de preconceitos.
ELP – Amanda, qual é a sua sensação ao ver pessoas com outras visões sobre seu texto?
AM – Essa é a maior graça de todas! A maioria dos textos que escrevi foi dirigida por mim, então estive sempre, de certa forma, numa zona de conforto. Mas já me percebi tendo que brigar com a Amanda dramaturga.
ELP – É a primeira vez que outras pessoas montam algo que você escreveu?
AM – Nessa proporção sim. Já escrevi textos para outras pessoas montarem, mas foi assim ‘faça para mim um texto de tal forma’, daí escrevi. Então estou muito empolgada com essa nova possibilidade com o Jardim. Fico fascinada justamente com esse mosaico, com as várias visões. São quatro trabalhos de direção completamente independentes. Não tenho nenhum medo que destruam meu texto ou algo assim. Até porque acredito no teatro como arte independente de qualquer outra. Por isso, quando se coloca alguma coisa no palco, você tem que, de fato, escrever no palco. Essa é uma visão muito particular, mas é a real pra mim. Não faz sentido pegar algo que a pessoa escreveu e simplesmente transpor. Se alguém pode imaginar, visualizar tudo enquanto lê um texto, então pra quê colocá-lo no palco? Não tem porque tentar colocar a simples leitura como espetáculo. Na verdade, o que me deixa curiosa mesmo é o que vou fazer com uma peça que já montei antes. Afinal, eu era outra pessoa naquela época. No início, acreditava que, por já ter feito, seria fácil, porém percebi que cada encenação percorre seu caminho. Aquela encenação ficou lá, agora as minhas motivações são outras. Fica, no entanto, essa expectativa sobre o que será feito de O Jardim Secreto, agora que ele não é mais meu, ele é do mundo.![]()
Entrevista realizada em 27 de Julho de 2011.
Foto 1: Victor Diomondes e Amanda Maia; Foto 2: Jones Mota; Foto 3 e 4: Victor Diomondes, Amanda Maia, Marie e Jones Mota.

6 comentários
Jones says:
ago 8, 2011
Ficou muito bacana.
Ato de 4 especial: O Jardim Secreto, nas segundas-feiras de Agosto na Sala 5 da Escola de Teatro | Ratoeira Cênica says:
ago 16, 2011
[...] Nossa redatora-sênior, Enoe Lopes Pontes, publicou aqui no Ratoeira uma reportagem completa sobre este intento artístico, que inclui uma entrevista com os quatro diretores e pode ser conferida no link: http://teatrosaladistar.com/ratoeiracenica/reportagens/na-sala-com-o-saladistar [...]
O Jardim e o Loop says:
ago 22, 2011
[...] http://teatrosaladistar.com/ratoeiracenica/reportagens/na-sala-com-o-saladistar [...]
Sobre nosso acampamento de férias says:
ago 22, 2011
[...] que a redatora-sênior do Ratoeira Cênica, Enoe Lopes Pontes, me perguntou na entrevista que realizou para o Ratoeira Cênica com os quatro diretores do Ato de 4 Especial, qual era a minha [...]
Ato de 4 especial: O Jardim Secreto, nas segundas-feiras de Agosto na Sala 5 da Escola de Teatro | Teatro Saladistar says:
ago 22, 2011
[...] Nossa redatora-sênior, Enoe Lopes Pontes, publicou aqui no Ratoeira uma reportagem completa sobre este intento artístico, que inclui uma entrevista com os quatro diretores e pode ser conferida no link: http://teatrosaladistar.com/ratoeiracenica/reportagens/na-sala-com-o-saladistar [...]
Grimório » Enquanto isso na Saladistar says:
ago 22, 2011
[...] que a redatora-sênior do Ratoeira Cênica, Enoe Lopes Pontes, me perguntou na entrevista que realizou para o Ratoeira Cênica com os quatro diretores do Ato de 4 Especial, qual era a minha [...]